Emocionalmente Instavel (Beijos)

Aug 29

O moço no ônibus, sentado do meu lado, chorou. Um choro doído, que vem de lá do fundo, farto de lágrimas grossas que brotam intermináveis.

Não sei por quê. Talvez estivesse doente. Ou talvez alguém que ele ama estivesse doente. Sabem como é, amor é esse troço chato que faz a gente querer sofrer no lugar do outro, e quando percebemos que não podemos, sofremos ainda mais. Quem sabe estivesse naquele ponto em que todos nós já estivemos um dia, quando todos os sonhos parecem ter nos abandonado e só sobraram cobranças do mundo. Sei lá.

Eu realmente quis dar um abraço. Mas a gente não pode sair tocando estranhos, todo mundo sabe disso.

Queria dizer uma palavra de conforto, ouvir o que tanto o afligia e, quem sabe, mostrar um novo ponto de vista, uma saída. Mas já temos tantos problemas e as vezes é melhor não se envolver nos dos outros, né? Deixar que as pessoas se resolvam sozinhas.

Na verdade eu até pensei em dar apenas uma olhada sincera, com uma expressão compreensiva, que dissesse que tudo vai terminar bem. Mas eu não fiz isso. Nem eu sei se tudo vai terminar bem. A gente nunca sabe.

Pelo reflexo da janela me vi frio e impassível, fingindo que um mundo inteiro não desabava ao meu lado. Minha respiração se tornou irregular. Um homem precisava de um sorriso, um encorajamento simples, e eu era incapaz disso. Meus olhos arderam. Em algum ponto da vida aprendi a me distanciar das pessoas, fugir com medo de tornar-me vulnerável ao me abrir para o que vem de fora. Tentei proteger os meus sentimentos como se só eles importassem, e para isso troquei minha humanidade por uma máscara de gelo que agora derretia, escorria pelas bochechas quentes de constrangimento.

Tampando a boca chorei como há muito tempo não chorava, porque não me permitia, porque não sabia mais como. Mergulhei em lágrimas de vergonha e auto-comiseração, com pena de mim, pelo humano que não sou. Não ajudei o outro porque já não podia ajudar a mim mesmo.

Mas prestes a afundar pra sempre em um mar sem esperanças, fui salvo. A mão do estranho ao meu lado irrompeu por entre as grades solitárias em que me prendi, dando tapinhas nas minhas costas, como se tudo fosse ficar bem.

*** Esse texto é fictício.

Aug 24

Conversas no Ônibus - Parte 1 

Pessoa A (20 e tantos anos, sentada): Dona Júlia!! Lembra de mim?
Dona Júlia (60 e tantos anos, de pé): Desculpa, minha filha…
Pessoa A: Eu estudei com a sua filha, ia na sua casa direto!
Dona Júlia: Aaaah sim…
Pessoa A: Fala pra sua filha que a Teca mandou um beijo, ela vai lembrar!
Dona Júlia: Falo sim…

Acabou o assunto, Pessoa A sorriu e se voltou pro celular. Dona Júlia seguiu de pé no ônibus.

***

Conversas no Ônibus - Parte 2

Pessoa B (40 e tantos anos, sentado): Ô Dona Júlia, esqueceu dos pobres??
Dona Júlia: Noite, Ademir.
Pessoa B: Tudo certinho com a senhora?
Dona Júlia: Tudo sim, graças a Deus.
Pessoa B: Então tá bom!

Desci do ônibus. Dona Júlia, 60 e tantos anos, continuava de pé.

***

BÔNUS:
Conversa no Posto de Saúde

Pessoa A: Preciso que o senhor me informe agora a cor da sua pele.
Pessoa B: Negro.
Pessoa A: Oi?
Pessoa B: Ah, desculpa. É preto que fala, né? Então, preto.
Pessoa A: Moço, você é pardo.
Pessoa B: Moça, eu tenho certeza que sou negro.

Pessoa A marcou um P no formulário, e Pessoa B ficou sem saber se P era de Preto ou Pardo. Deixou de ser Pessoa B para se tornar Pessoa P - mas o que P significa parece que não cabe a ele decidir.

***

Aug 24

"Sem nossas histórias, sem a verdadeira natureza e realidade de quem somos enquanto Pessoas de Cor, nada da cultura geek faz sentido. O que eu quero dizer é: não fosse pela questão racial, X-Men não teria sentido. Não fosse pelo histórico de inserção de seres humanos no Novo Mundo através da escravidão, Duna não teria sentido. Não fosse pelo colonialismo e imperialismo, Star Wars não faria sentido. Não fosse pelo extermínio dos indígenas, a maioria das histórias de [primeiro] contato da ficção científica não teriam sentido. Sem nós como o ingrediente secreto nada disso funciona, e já é hora de entendermos que nós somos a Força que sustenta o universo Star Wars. Nós somos a Lei Primária [de não interferência em outras culturas] que torna Star Trek possível. Nós somos o juramento dos Lanternas Verdes. Nós somos todas essas coisas - invisíveis, mas ainda assim essenciais."

Junot Diaz em Fran Boz, 18/11/2013
Trecho retirado do blog the Mary Sue e traduzido por ‪#‎euzinho‬

May 04
Aproveitando que o instagram ta deixando a Turma do 3G™ brincar hoje, vamos postar um desenho do dia 01/05, né?

Aproveitando que o instagram ta deixando a Turma do 3G™ brincar hoje, vamos postar um desenho do dia 01/05, né?

Mar 11

Quero beijar-lhe a boca… Mas não para dar-lhe o pedaço de mim que tanto cobiças.

Quero beijar-lhe a boca para que o toque gélido dos meus lábios aterrorizem para sempre os seus. Quero marcar a sua lingua com meu desprezo e engasgá-lo com o amargor que outrora cultivastes no imaculado jardim de minhas ilusões. Quero transformar o mais puro símbolo do amor em tormento infinito para sua alma.

Quero beijar-lhe a boca… Para que nunca mais beijes ninguém.

Feb 18
Feb 17

”(…)Assisti de uma esquina enquanto tomava um copo de leite: um homem completamente banal com um pêssego na mão. Fiquei olhando o pêssego maduro que ele rodava e apalpava entre os dedos, fechando um pouco os olhos como se quisesse decorar-lhe o contorno. Tinha traços duros e a barba por fazer acentuava seus vincos como riscos de carvão mas toda a dureza se diluía quando cheirava o pêssego. Fiquei fascinada. Alisou a penugem da casca com os lábios e com os lábios ainda foi percorrendo toda sua superfície como fizera com as pontas dos dedos. As narinas dilatadas, os olhos estrábicos. Eu queria que tudo acabasse de uma vez mas ele parecia não ter nenhuma pressa: com raiva quase, esfregou o pêssego no queixo enquanto com a ponta da língua, rodando-o nos dedos, procurou o bico. Achou? Eu estava encarapitada no balcão do café mas via como num telescópio: achou o bico rosado e começou a acariciá-lo com a ponta da língua num movimento circular, intenso. Pude ver que a ponta da língua era do mesmo rosado do bico do pêssego, pude ver que passou a lambê-lo com uma expressão que já era de sofrimento. Quando abriu a boca e deu o bote, que fez espirrar longe o sumo, quase engasguei no meu leite. Ainda me contraio inteira quando lembro, oh Lorena Vaz Leme, não tem vergonha?”

As meninas - Lygia Fagundes Telles

Feb 15

theartofanimation:

Alexey Kurbatov

don’t ask, just admire

Feb 15
Feb 13
será que vai???

será que vai???